A Ponte da autoconfiança
Depois
de andar por algum tempo em total escuridão veio um sentimento
estranho que me acompanhou por algum tempo, ele parecia-se comigo,
mas era meio bipolar, em algumas horas me estimulava a ir em frente,
em outras choramingava que queria voltar, seu nome era Coraticum
Fobia e por alguma razão estranha eu o seguia. Em um ponto entre um
grande abismo e a continuação da viagem, isso mesmo, o ponto entre
eles era uma ponte inacabada que eu nunca tinha visto, ele surtou de
vez.
“Vamos
voltar, é mais seguro no pensamento consciente! Não, sempre em
frente, vamos que o caminho ainda é longo!” Ele se contradisse.
“Está
escuro demais pra voltar e não tem como atravessar por uma ponte
inacabada.” Respondi.
Comecei
então a procurar alguém que pudesse me ajudar, ou pelo menos algo
que pudesse me ajudar, perto dali havia uma pequena casa de obras, na
frente dela um senhor cansado e com cara de experiente estava sentado
em uma cadeira lendo o jornal. Fui interpelá-lo sobre o que havia
acontecido que não terminaram a ponte.
“Faltou
matéria-prima.” Ele respondeu.
“Madeira?
Pedras? Mas ali está cheio!” Disse apontando pra casa de obras.
“Não,
não, essa não é uma ponte comum, ela teve de ser construída com
um material especial que não é fácil de encontrar.”
“Mas
que espécie de abismo é esse que não se pode fazer uma ponte
comum?”
“Esse
é o abismo da insegurança, não se pode seguir viagem sem passar
por ele. Tudo culpa daquele ali,” ele apontou pra Coraticum Fobia,
“foi ele que fez o abismo!”
Olhei
pro sentimento, ele me olhou com convicção e depois abaixou os
olhos receoso. Estava começando a entender o que acontecia quando
ele resolveu falar.
“Não
é minha culpa, tenho dois lados, um é corajoso, o outro é o maior
dos covardes. Quanto mais medo maior fica o abismo.”
“E
que material é preciso pra terminar a ponte?” Perguntei para o
velho.
“Autoconfiança!”
Respondeu ele, o que me pareceu muito autoconfiante da parte dele.
“Droga
Coraticum, droga. Agora como eu vou passar?”
O
sentimento estremeceu, num momento parecia que ia me xingar, no outro
estava com aquele olhar apavorado de novo. Comecei a entendê-lo, eu
acho, minha primeira sacada de mestre, assim digamos, foi que se ele
estava na minha cabeça era um sentimento meu. A segunda foi que ele
tinha uma dualidade, foi aí que que descobri que ele era meu medo e
minha coragem, óbvio, um não existia sem o outro. Vi naquele
sentimento um reflexo de mim, duas versões da mesma pessoa em um
único ser, senti saudades e pensei em Eu unicamente naquele momento.
“Não
é minha culpa,” ele repetiu, “não posso evitar que isso
aconteça. Enquanto brigo comigo mesmo só gera mais e mais
insegurança, quando medo e coragem não se dão só podem gerar
insegurança!” Ele parecia se dirigir mais ao velho do que a mim.
“E eu sou apenas um sentimento, um sentimento dele e ele devia me
controlar melhor!”
Agora
o sentimento estava me acusando, isso era loucura demais até pra
mim, tentei me defender.
“Olha,
não me leve a mal Coraticum...”
“No
momento sou Fobia, vamos separar os lados por favor.” Ele me
interrompeu.
“Que
seja, não me leve a mal, mas só vou conseguir controlar meus
sentimentos com o tempo...”
“Não
me envolva nessa história!” Desta vez o velho interrompeu.
“Ah,
cala essa boca velho! Você não é o tempo nem aqui nem do outro
lado do córtex cerebral!”
“Está
mais corajoso Fobia?” Ele perguntou ao sentimento que duvidava da
sua identidade.
“Acho
que sou Coraticum agora.”
“Vamos
parar com a palhaçada agora!” Eu me senti no direito de
interromper.
“Você
que começou!” Ambos me acusaram.
Estava
cansado daquele aponta daqui aponta de lá, maldito joguinho de
empurra empurra que não ajudava em nada e que começou a me subir
nos nervos. Nesse ponto confesso que foi falha minha deixar de avisar
que meu cachorrinho, um chiuaua marrom chamado Irritação, dormia em
cima dos nervos, um mal hábito concordo. Desperto pela confusão ele
começou a dar aqueles latidos irritantes que ecam nos tímpanos.
“Quieto
Irritação, quietinho, quem é o bebê fofinho? Quem é?”
Não
é preciso dizer que essa bajulação de nada adiantou e ele pulou em
cima do velho e do sentimento. O pequeno peste escolheu como primeiro
alvo a canela do sentimento.
“Larga,
por favor, me larga. Cachorrinho bonzinho, larga pelo amor de Deus!”
Ele choramingava.
Ele
largou, mas abocanhou a barba do velho que havia caído com a
investida do cão e não levantara antes da segunda investida do
Irritação, começando uma espécie de cabo de guerra em que o velho
tentava erguer a cabeça sem levar pendurado nos pelos do rosto o
chiuaua. Eu mereço! Tudo eu, tudo eu.
Enchi
os pulmões de ar e falei o mais alto que podia.
“Ordem!
Ordem! Irritação, já pra casinha, e vocês dois, isso são modos?
Tratem de se recompor, onde já se viu dois marmanjos perdendo pra um
cachorrinho?!”
Nesse
momento me senti cheio de autoconfiança, transbordando até, foi
quando Coraticum Fobia começou a se dissolver e a se incorporar a
mim. Aquilo foi bizarro, mas de alguma forma me senti bem. O velho,
que dizia ser o tempo, foi pegando os blocos de autoconfiança e
colando-os ao resto da ponte, me impressionei com a velocidade que
ele fazia aquilo. Assim, em pouco mais de duas horas a ponte estava
finalizada, e eu estava já estava na ultima passada pra atravessá-la
quando o velho me parou.
“Deixe-me
te dar um aviso,” usou um tom que pra mim parecia muito experiente
em convencer as pessoas, “sempre que você se ligar aos seus
sentimentos ficará mais humano. Sua mente é insana demais pra
suportar, você é insano demais pra suportar, evite sentir que você
chegará até o seu objetivo.”
“Você
pirou de vez?” Estava mais do que claro que ele não era o tempo
nem de longe. Que pensamento mais idiota, cheguei a pensar outro até,
que se fosse mais idiota poderia ter sido meu e guardei a nota mental
de fechar bem minha mochila pra ninguém roubar meus pensamentos.
“Se
não quiser aceitar azar o seu, o conselho eu dei.”
“Isso
é só papo furado, aposto que sem sentimento você não passa nem do
próximo obstáculo!” Eu estava segurando Irritação pela coleira
pra não atacar o velho.
“Acha
mesmo?” Ele perguntou. “Pois bem, aposta aceita.”
“Hã?”
Viram, isso sim é pensamento idiota, nada mais idiota que um hã? na
hora errada.
“Você
disse que apostava, eu disse que aceito. Quem chegar até as ideias
primeiro vence, se você ganhar te dou tempo o suficiente para
trabalhar, estudar e cuidar de uma família, mas se você perder eu
fico com todas as suas ideias que escaparam. Então, topa?”
Aí
Coraticum aprontou a primeira depois de incorporado a mim.
“Topo!”
O
velho disparou na frente com uma saúde de dar inveja a qualquer
maratonista.
Agora
eu estava numa corrida contra o tempo, literalmente.